quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Dois sambas-narração

Quando o samba acabou

Noel Rosa

Lá no morro da Mangueira
Bem em frente a ribanceira
Uma cruz a gente vê
Quem fincou foi a Rosinha
Que é cabrocha de alta linha
E nos olhos tem seu não sei que
Numa linda madrugada
Ao voltar da batucada
Pra dois malandros olhou a sorrir
Ela foi se embora
Os dois ficaram
E depois se encontraram
Pra conversar e discutir
Lá no morro
Uma luz somente havia
Era lua que tudo assistia
Mas quando acabava o samba se escondia
Na segunda batucada
Disputando a namorada
Foram os dois improvisar
E como em toda façanha
Sempre um perde e outro ganha
Um dos dois parou de versejar
E perdendo a doce amada
Foi fumar na encruzilhada
Passando horas em meditação
Quando o sol raiou
Foi encontrado
Na ribanceira estirado
Com um punhal no coração
Lá no morro uma luz somente havia
Era Sol quando o samba acabou
De noite não houve lua
ninguém cantou

Piston de Gafieira

Billy Blanco

Composição: Billy Blanco
Na gafieira segue o baile calmamente
Com muita gente dando volta no salão
Tudo vai bem, mais eis porém que de repente
Um pé subiu e alguém de cara foi ao chão
Não é que o Doca é um crioulo comportado
Ficou tarado quando viu a Dagmar
Toda soltinha dentro de um vestido saco
Tendo ao lado um cara fraco, foi tirá-la pra dançar
O moço era faixa preta simplesmente
E fez o Doca rebolar sem bambolê
A porta fecha enquanto o duro vai não vai
Quem está fora não entra
Quem está dentro não sai
Mas a orquestra sempre toma providência
Tocando alto pra polícia não manjar
E nessa altura como parte da rotina
O pistom tira a surdina
E põe as coisas no lugar

Acho o primeiro samba, de Noel, uma das suas mais felizes composições, e interpretado por Leila Pinheiro, fica perfeito. Teria que incuí-lo aqui, mas aí lembrei desse outro samba, do Billy Blanco que faleceu a poucos dias, outro grande do samba. Os dois sambas têm em comum o seu caráter narrativo, que sempre me atraiu muito em algumas letras de música. As letras atuais perderam não só em poesia, mas também em prosa. Sim, se pode fazer música em prosa, como prosa de costumes, como narração de uma estória. Os dois sambas são muito bons nos dois aspectos, descrevem a vida boêmia marcada pelo seu conflito com a lei, com a ordem, como é próprio do samba, enquanto música do morro, dos negros pobres do Rio, embora os dois compositores sejam brancos e bem arranjados socialmente. Mas aí já temos outra estória, eram tempos em que não se vivia o apartheid social que vivemos hoje, ser pobre ainda não era crime, apesar de alguns sambistas se envolverem em alguns "casos policiais" e descreverem o malandro como um fora-da-lei. O que é belo na primeira é a forma trágica e romântica como Noel descreve o malandro, aquele que é capaz de morrer por amor depois de disputar a mulata. Há toda uma atmosfera de honra envolvida na descrição.
Comparando a trama amorosa que há nas duas vemos como os dois apresentam a mulher como todo objeto de contenda como uma personagem passiva, já que pertencerá ao que for melhor improvisador no primeiro caso, ou do mais forte, no segundo. No primeiro, na verdade, quem a conquista no final é o perdedor, mas pagando com a vida; na verdade não a conquista, mas conquista sua admiração, não só a sua, mas a de todo morro, "de noite não ouve samba, ninguém cantou" é o espírito do verdadeiro artista capaz de imolar-se por um ideal. Assim na verdade Quando o Samba acabou, na verdade, é uma alegoria, Noel está narrando o "nascimento" do samba, ou seja, a conquista de sua hegemonia como a Música brasileira, o poeta que se apunhala, na verdade é o próprio Noel, esse ideal ele realmente morreu defendendo, e alcançou através de sua postura e de sua obra,o rapaz branco de classe média capaz de subir o morro, aprender com o povo sua cultura, narrar a sua vida, suas misérias e proezas, e tudo isso é claro com o poder transmutador da sua veia poética. Voltando à mulher; como todo objeto de cobiça, também é apresentada como um elemento de desordem, como essa faísca que lança os homens à contenda. Note-se outro paralelismo muito interessante, ao tempo que,no primeiro, a disputa que termina de forma trágica, na verdade, é uma alegoria para demonstrar a paixão, o heroísmo e a honra de que é possível o malandro, tornando essas virtudes como típicas do caráter do malandro, salvando assim socialmente o sujeito e abrindo as portas para a aceitação da sua música pela sociedade como um todo, pela parcela branca. No segundo, é o píston que é usado para ocultar aos olhos da polícia, o conflito que se desenrola, dessa vez pela força. A gafieira é apresentada como um ambiente em que é rotina que se resolvam as coisas por meio da força,mas isso é apresentado de forma zombeteira e nostálgica, não é descrito como crime oculta uma confusão da polícia; a gafieira parece prescindir da atuação da polícia. Parece não haver nada de mais grave ou criminoso nesse ambiente, apenas o fato de alguns se enganarem com relação á sua própria força para tomar a mulher do outro. 



sábado, 2 de julho de 2011


 

Em 1973, Sampaio lança seu primeiro LP, Eu quero é botar meu bloco na rua, que apesar de fracassar enquanto disco, mesmo sendo perfeito (ou talvez por isso mesmo), tem a música título como o grande sucesso do carnaval de 73 (eram outros carnavais!), com a qual já havia ganhado o Troféu Imprensa no ano anterior. Vejam a letra da faixa nº 4 desse LP, feita para seu pai:

Pobre Meu Pai

Pobre meu pai
Quatro punhos espalhados no ar
Oito olhos vigiando o quintal
E o meu coração de vidro
Se quebrou
Doido meu pai
Sete bocas mastigando o jantar
Sete loucos entre o bem e o mal
E o meu coração de vidro
Não parou de andar
Pobre meu pai
A marca no meu rosto
É do seu beijo fatal
O que eu levo no bolso
Você não sabe mais
E eu posso dormir tranqüilo
Amanhã, quem sabe?
Hoje, meu pai
Não é uma questão de ordem ou de moral
Eu sei que posso até brincar
O meu carnaval
Mas meu coração é outro
Simples, meu pai
Faça um samba enquanto o bicho não vem
Saia um pouco, ligue o rádio, meu bem
Não ligue, que a morte é certa
Não chore, que a morte é certa
Não brigue, que a morte é certa


Já Torquato Pereira de Araújo Neto (Teresina, 9 de novembro de 1944 — Rio de Janeiro, 10 de novembro de 1972) foi contemporâneo de Gilberto Gil no Colégio Nossa Senhora da Vitória e trabalhou como assistente no filme Barravento, de Gláuber Rocha. Torquato envolveu-se ativamente na cena cultural soteropolitana, onde conheceu, além de Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia. Em 1962, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar jornalismo na universidade, mas nunca chegou a se formar. Trabalhou para diversos veículos da imprensa carioca, com colunas sobre cultura no Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora. Torquato atuava como um agente cultural e polemista defensor das manifestações artísticas de vanguarda, como a Tropicália, o Cinema Marginal e a Poesia Concreta, circulando no meio cultural efervescente da época, ao lado de amigos como os poetas Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos, o cineasta Ivan Cardoso e o artista plástico Hélio Oiticica. Nesta época, Torquato passou a ser visto como um dos participantes do Tropicalismo, tendo escrito o breviário "Tropicalismo para principiantes", onde defendeu a necessidade de criar um "pop" genuinamente brasileiro: "Assumir completamente tudo que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido". Torquato também foi um importante letrista de canções icônicas do movimento tropicalista.

 Vejam a letra de Mamãe Coragem:

Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu fui embora
Mamãe, mamãe não chore
Eu nunca mais vou voltar por aí
Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu quero mesmo é isto aqui
Mamãe, mamãe não chore
Pegue uns panos pra lavar, leia um romance
Veja as contas do mercado, pague as prestações
Ser mãe é desdobrar fibra por fibra os corações dos filhos
Seja feliz, seja feliz
Mamãe, mamãe não chore
Eu quero, eu posso, eu quis, eu fiz, Mamãe, seja feliz
Mamãe, mamãe não chore
Não chore nunca mais, não adianta eu tenho um beijo preso na garganta
Eu tenho um jeito de quem não se espanta (Braço de ouro vale 10 milhões)
Eu tenho corações fora peito
Mamãe, não chore, não tem jeito
Pegue uns panos pra lavar leia um romance
Leia "Elzira, a morta virgem", "O Grande Industrial"
Eu por aqui vou indo muito bem , de vez em quando brinco Carnaval
E vou vivendo assim: felicidade na cidade que eu plantei pra mim
E que não tem mais fim, não tem mais fim, não tem mais fim

E Deus vos salve essa casa santa também com Caetano:

Um bom menino perdeu-se um dia
Entre a cozinha e o corredor
O pai deu ordem a toda família
Que o procurasse e ninguém achou
A mãe deu ordem a toda polícia
Que o perseguisse e ninguém achou
Ó deus vos salve esta casa santa
Onde a gente janta com nossos pais
Ó deus vos salve essa mesa farta
Feijão verdura ternura e paz
No apartamento vizinho ao meu
Que fica em frente ao elevador
Mora uma gente que não se entende
Que não entende o que se passou
Maria amélia, filha da casa,
Passou da idade e não se casou
Ó deus vos salve esta casa santa
Onde a gente janta com nossos pais
Ó deus vos salve essa mesa farta
Feijão verdura ternura e paz
Um trem de ferro sobre o colchão
A porta aberta pra escuridão
A luz mortiça ilumina a mesa
E a brasa acesa queima o porão
Os pais conversam na sala e a moça
Olha em silêncio pro seu irmão
Ó deus vos salve esta casa santa
Onde a gente janta com nossos pais
Ó deus vos salve essa mesa farta
Feijão verdura ternura e paz